Cheio de erros e ternura

janeiro 18th, 2012 § Deixe um comentário

Li e-mails antigos no fim de semana.

Foi tempo demais com discussão pequena. Tão clichê. Tantos detalhes. Cheguei a escrever a raiva em tópicos. Negrito. Caps lock e sublinhado. Pulei linhas pra agredir mais. Vírgulas pra ter razão.

O pior remorso foi ter um dia escrito não preciso de nada disso. Negações ao cubo em cinco palavras. Nem pra ser suave ou botar nariz de cera na tentativa de amenizar. Dias e dias no mesmo assunto. Discussão da discussão dos outros. Aquela noite da semana passada. Uma vez você disse que. Discordar não é perder o respeito. Porque. Por que. Acentos circunflexos nos lugares certos. Plurais que uma discussão falada nunca permitiria. Até a nova ortografia entrou na dança. Praticamente uma dissertação, faltou só ABNT. Tudo na métrica sagrada da competição por quem magoa mais. Fomos sofisticados na dor.

E pensar que tudo começou com um e-mail.

Ou no primeiro dia, quando errou meu nome. Ou quando se irritou porque tirei sarro que minha lagosta de pelúcia continuaria teddy bear. Era um sufoco, não podia errar. Precisava ser perfeita. Como se não precisasse dele, era só pra confirmar pronúncia, coisa assim. Todo mundo fica idiota se fazendo de desinteressado. Aí que se apaixona mesmo. É o segredo.

Acho que foram dois meses ensaiando um convite. Nada que soasse vulgar. Ou desesperado. Cheguei a escrever um bilhete, arrancar a folha do caderno, dobrar bem pequenininho. Por sorte tomei conta do ridículo, foi pro lixo. Mais uma semana quebrando a cabeça. Tomando coragem em doses homeopáticas. Já estava cansada de googlear, queria ouvi-lo. Em português.

E tinha essa coisa de enviar compositions pra que corrigisse em casa. Então escrevi um e-mail cheio de erros e ternura. Perguntava como poderia, em inglês, convidá-lo pra sair, sem ficar sem graça. Havia alternativas, tipo: a) Você está louca? Não te conheço! Sai daqui, agora!; b) Desculpe, criança. Sou seu professor. E me chame Sr. Professor; c) Sem chance. Você odeia inglês e acha que é coisa do demo. Por aí foi.

Ele corrigiu. Assinalou a alternativa que topava sair comigo. Antes, trocamos e-mails por dias. Foram os melhores dos melhores de toda a historia. Brincadeiras com os sobrenomes, contos malucos e reportagens fictícias, quilos de músicas, links, poemas. O tempo trouxe tudo. O primeiro te adoro, quando quer dizer te amo sem assustar. Os surtos dos ex. A dissertação que nunca terminei de ler. Ideias de viagens. Preços do casamento. Fotos. Kilômetros de felicidade. E as discussões. A última, justamente, por causa de um e-mail infeliz.

Hoje são mensagens burocráticas. Pra combinar o divórcio. Transferir a linha telefônica. Avisar que chegou uma correspondência. Seriam menos tristes se não me negasse as vogais quando escreve bjs.

Poderia apagá-los. Preciso muito de todos pra sempre.

Cozinheira falsa

janeiro 17th, 2012 § Deixe um comentário

Ana queimou o dedo fritando ovo. Cozinheira falsa, diz. O curativo quadrado parece cortado no improviso. É magrinha e contida. Usa batom rosa choque. Coisa mais linda na pele morena. Hesitou em sentar à mesa no café. Ficou em silêncio, cotovelo grudado no corpo. Tem sorrido lúcido, solto. Fala por ela o que a timidez não deixa. Abre portas, arrasta cadeiras. Deve ser porque é pé vermelho de Campo Mourão. Os pais nordestinos deram a pele firme cor de caramelo. Atravessa a rua pra fumar. Sabe que na casa, mesmo no jardim, seria pior que pecado. Poderia ser Joana, Raquel, Marli, Suzana. Mas queimou o dedo fritando ovo, a Ana.

Dois reais o quilo

janeiro 16th, 2012 § Deixe um comentário

Seu Paulinho produz mariscos há quinze anos. Sou nativo. Tá explicado o bronze e o corpo seco. Atendeu uma estrangeira que levou três baldes. Dois reais o quilo. A mulher não parava de falar. Conferia a balança adiantando o preparo às amigas. No tiene mucha carne, es como un aperitivo. Simpática. Berrava nas sílabas tônicas botando o portunhol da gente em dia. Deixou o homem preocupado. Já te atendo, menina. Ele usava regata e bermudão jovial pra casa dos sessenta. Mostrou o barquinho azul e amarelo onde pesca fora da temporada, quando fornece aos restaurantes. No verão vende ali mesmo, na areia, com a placa gasta apoiada no trapiche, pra gringos e troianos. Apontou o paredão de pedras, as boias no mar. A gente coloca redes na água e a natureza se encarrega do resto, gruda os bichinhos nos fios. Leva um ano. Ele é assim, ó. Pegou um marisquinho fechado do fundo do barco. Então o bicho tá ali dentro, vivo. Tá ali dentro, vivo. E fica assim, grandão, depois. Fica grandão, assim, depois. Vontade de abrir. Forcei as conchas com a unha. O homem arregalou os olhos, curvou-se nas cestas. Estendeu a mão. Joga aqui que depois devolvo ele pro mar. Nasceu pescador pra salvá-lo. Cresceu homem pra saber das coisas que a natureza sabe fazer sozinha. Vai levar hoje, menina? Estava escrito Paulinho na bacia.

Chapéu do Presto e o jornalismo

dezembro 30th, 2011 § 2 Comentários

Dos fundos do corredor de paredes brancas e divisórias de pevecê vem o som de salto alto. Toc, toc, toc, toc. Na sala da frente, tudo escuro. No departamento ao lado, a contínua espia entre as folhas da planta o senhor enchendo uma garrafinha de água mineral. Passarinhos cantam. Garoa. Cheiro de plástico.

Onde eu estava com a cabeça quando achei que o jornalismo seria uma aventura?

Pra quem cresceu vendo Goonies, Conta Comigo, Indiana Jones e Convenção das Bruxas, era de esperar que o imaginário de uma vida inteira se contaminasse com ânsia por imprevistos ou desafios gigantescos, desses que a gente espera vencer com goma de mascar e clipes. A sede por tesouros perdidos me jogou pra uma fase na infância em que carregava a todo canto uma mochila com o que julgava ser um kit de sobrevivência para o caso de esbarrar em um portal de outra dimensão. Era: um pacote pequeno de biscoito, um novelo de barbante (vai saber quando é preciso fazer um torniquete ou uma cama-de-gato? Não é à toa que o náufrago criou Wilson), tesoura, blusa, água e… papel e caneta. Mais insano do que viajar que eu poderia realmente descobrir um tesouro gigantesco e ultrasecreto no meio da sorveteria Formiga é crer que papel e caneta teriam utilidade tão legítima quanto barbante.

Levava aquela tralha pra lá e pra cá, na esperança de ser abduzida pras montanhas de Caçadoras de Aventuras ou dar de cara com um DeLorean marcando na esquina. Estava preparada para o que fosse, projetando num buraco de tecido tudo o que era possível sonhar. Era meu próprio chapéu do Presto.

Isso deve ter contado muito pra escolher a faculdade de jornalismo. Tem caricatura mais atraente que o repórter super-homem nas ruas a salvar o mundo? Um correspondente internacional cobrindo guerra direto do campo de batalha?

Com o passar dos anos, você abandona o romance e se rende a um vale alimentação. Vira assessor de imprensa, produtor cultural ou corretor de imóveis.

Outro dia, conversei com um colega da faculdade que está muito bem, estável e exerce uma atividade divertida. Lá pelas tantas, confessou que, no fundo, queria ter feito algo no estilo dos diários secretos. Ou ter sido preso em uma solitária na Síria, como aconteceu – mesmo – com outro colega nosso. Na falta do que dizer, assumindo que entendo perfeitamente o que sente, saiu um troço meio insensível do tipo “a grama do vizinho sempre é mais verde”.

Quando o que eu mais queria era olhar bem no fundo dos olhos, abraçá-lo com força, esfregando as costas, e dizer com tom maternal: os dias vão continuar passando e nunca seremos heróis, sequer de nós mesmos. A culpa, como sempre, é dos anos 80.

As unhas

setembro 9th, 2011 § Deixe um comentário

Na bilheteria, falei pra moça que ela tinha unhas muito bonitas. Ela encolheu os dedos e deu um sorriso, agradeceu. Falei que um dia deixaria de roer as minhas pra ter as unhas iguais as dela. Meio sem graça, disse: “eu também roía as minhas, aí um dia falei pra mim, vou parar”. Abriu bem os olhos, me entregou a entrada: “E parei.”

Simples.

A lombada e a bicicleta

agosto 11th, 2011 § 1 Comentário

Aprendi a respirar fundo e agora só sei fazer planos para uma vida completamente dedicada a se tornar minha verdadeira magnum opus. E foi nessas que passei rápido pela Toaldo Tulio, quando um tiozinho tentava atravessá-la de bicicleta. Ele parou ao lado de uma lombada, olhou para o lado já dando embalo, num impulso, feliz e sabichão, satisfeito com a própria esperteza por driblar o trânsito caótico. Não percebi e passei reto, freando apenas para a lombada. Vi o concreto e não vi o tiozinho. Ele parou o embalo no susto e, certeza, pensou “garota mal-criada”. Meu coração despencou pelo viaduto até a BR-277 e dizem que foi visto lá pelos Campos Gerais. Os planos foram por água abaixo, virei um monstro, e nenhum monstro constrói uma obra-prima. Ou faz? Não nos moldes que desenhei, com janelas grandes, toda varandada. O tiozinho tinha cabelos brancos, bigodinho e boné.

Atravessou a rua logo depois, quando o carro de trás – iluminado – parou e deixou-o seguir a vida.

Tempo

julho 16th, 2011 § Deixe um comentário

cai manga do alto

madura demais

nasce barba no rosto

pela manhã

Aquela que não tinha e não era

março 31st, 2011 § Deixe um comentário

Ela não tem. Não deve sequer ter visto um dia. Faz parte não ter consciência do que é ou poderia ser, desde sempre foi preta e branca. Quando criança, a professora a deixou para fora da sala na volta do recreio porque não a viu diante do nariz. Embora fosse opaca, a faziam sumir em vento.

Continua maciça e indiferente no mundo. Veste a pele dura com camisetas largas e calças de velho. Nem mesmo a perna – que mexe, sim! – respira. Anda pelo corredor em passos pesados, se confunde com a parede, está mais para um extintor de incêndio. Seria capaz de deixar tudo ruir a um palmo do rosto.

Não está morta porque não existe. É figurante no mundo para lotar ônibus e não reclamar. A única certeza é de que não tem e nunca saberá o que é ter. Não é possível entender, o que não parece incomodá-la pelo jeito que anda corcunda e fala fraco. Que vontade de chacoalhar, dar um tapa na cara! Não irá a lugar algum e morrerá empoeirada, feliz.

A garota do Subway

março 25th, 2011 § Deixe um comentário

Ela estava na fila fazendo pedido, praticamente só salada em pão integral com aveia e mel. Tinha cabelos loiros propositalmente queimados, bronzeado em dia, cintura fina, calça jeans apertada. Dava passos firmes apoiando o quadril em uma perna por vez a cada avanço pelos ingredientes. Movimentos leves dão a impressão de frescor, logo acho que senti perfumes impossíveis ao vê-la de longe. Era jovem e promissora. Dessas pessoas que sem fazer o menor esforço qualquer ser vivo concordaria em chamar de bonita.

Ela tinha menos de um metro e sessenta, usava calças pretas e largas amarrotadas sob um avental levemente envelhecido. Tinha os cabelos presos em uma touca de renda e escondidos em um boné maior que a cabeça. Uma mecha escorregava pela testa mostrando o loiro propositalmente queimado. Tinha a pele perfeita como se houvesse um photoshop em tempo real nos separando pelo vidro do balcão. Os olhos eram mistério. Levemente rasgados e muito amarelos, um pouco âmbar misturado a café com leite. Usava um piercing pequeno no nariz e tinha lábios rosados. A voz muito fininha e delicada repetia incansável “queijo cheddar, prato ou suíço?”

Um pequeno retrato do verdureiro

março 10th, 2011 § Deixe um comentário

Nada na vida é mais precioso que estacionar a Kombi na rua perto do trilho do trem. Abre o bagageiro às sete da manhã e ali dispõe com cuidado as cabeças de alface, os tomates e as cenouras – tão vívidas que parecem de desenho animado.

Armado com o uniforme de guerra – calça social, camiseta de algodão, boné e chinelos de dedo – cumprimenta as pessoas que cruzam por ele, mesmo que não manifestem o menor interesse por seu arsenal hortifruti.

Sorri o dia todo, faz piada com o troco, pergunta da vida. Tem interesse verdadeiro por seus clientes, chega a ser inconveniente como faz perguntas e se faz participante do mundo. A senhora voltou com o esposo? E a menina, já sarou da alergia? O senhor está mais barrigudo, está comendo muita massa?

Volta para casa com pena das folhas murchas que sobram no fundo das caixas de madeira. Conversa com cada uma antes de jogar no lixo e sempre pensa nelas por muitos dias depois. Nenhum pingo de tempo passa em vão, pois faz questão de cultivar a todo momento uma lucidez absurda de estar vivo.